Amamentar, biberão e o respeito pelas escolhas das mães

Tive duas experiências bastante diferentes no que toca à alimentação dos meus filhos. O primeiro apenas bebeu leite materno durante um mês, quase sempre retirado com a bomba, e a segunda tem tido uma alimentação mista e com quase um ano de idade ainda mama, sem se prever que deixe de o fazer tão cedo. Sem entrar em pormenores de diferenças e de como decorreu com ambos, há algo que mantenho sempre muito presente e que se refere à convicção de que a qualidade da relação no momento da alimentação é sempre prioritária relativamente à forma como esta ocorre (mamar na mama ou mamar no biberão), tanto para a mãe como para o filho.

Para que esta relação, em díade, ocorra com a melhor sintonia possível, é de absoluta importância que a mãe vá encontrando segurança nas suas opções e procure ouvir-se e conectar-se consigo mesma para que, independentemente dos factores externos, possa respeitar-se a si mesma e às suas necessidades enquanto mãe, estando consequentemente mais disponível para atender a um ser que passou a ficar completamente dependente de si. Isto nem sempre acontece, ou é mais difícil surgir espontâneamente, porque temos um lado mais racional que está sempre activo e a tentar discernir o certo do errado mas, se nos desligarmos um pouco do que nos rodeia, o nosso corpo acaba por nos dar as respostas que precisamos.

Há mães que desejam muito amamentar, há outras que por algum motivo não o desejam e há ainda as que não têm muito presente o que irão fazer e estão abertas a ir decidindo conforme o processo. Seja como for, é muito frequente que todas estas mães se deparem com uma série de opiniões e conselhos que fazem desta jornada uma fase menos íntima e privada, podendo colocar em dúvida as suas qualidades maternas e despoletando inseguranças desnecessárias e que lhe retiram a sensação de competência que tanto precisam no iniciar da sua maternidade.

Uma mãe que deseja amamentar depara-se constantemente com a monitorização alheia do comportamento e evolução do bebé, seja na frequência do choro, seja no peso do mesmo ou noutro factor qualquer que pareça justificar que o seu leite não é suficiente ou de qualidade. Se esta não tiver o apoio necessário, seja da família, de profissionais de saúde e/ou conselheiras de aleitamento materno, o caminho é não raras vezes o abandono do seu desejo de continuar a dar de mamar com toda a frustração que isso acarreta. Nenhuma mãe quer que o seu filho não esteja a ser devidamente alimentado e a falta de experiência/conhecimentos aliados à pressão exterior acaba por conduzir a uma decisão que poderia não ser tomada caso esta mãe fosse apoiada por quem sabe do assunto, já que na maioria das vezes, com esse mesmo apoio, a amamentação é bem sucedida. Se esta fase for ultrapassada ou não trouxer problemas de maior, há outras que se seguem, uma delas cerca de um ano depois, em que a nossa sociedade interiorizou que uma criança que mame para lá do ano de idade é certamente fruto de uma mãe que está a promover laços de dependência extrema com o seu filho. Sabemos que do ponto de vista biológico essa data não faz qualquer sentido, é só um marco social, mas ainda permanece a ideia de que uma amamentação mais tardia é nefasta para as crianças, com todo o sentimento de vergonha que isso pode trazer a uma mãe que fica dividida entre sentir que é um momento prazeiroso para ambos e corresponder ao que o exterior lhe vai ditando. No meio disto tudo, ainda há o pudor da exposição física, em que algo de absolutamente natural é visto com conotações negativas ou até sexuais. Amamentar em público ainda traz algumas limitações ou “regras de etiqueta” que nada têm a ver com a absoluta naturalidade do acto. Há muito a fazer para promover a amamentação, para se proporcionar um melhor atendimento e informação às mães que querem dar de mamar, assim como para mudar mentalidades na população em geral.

Já uma mãe que, pelos mais diversos motivos do seu foro privado, não deseje amamentar ou a meio do processo sinta que não quer continuar, é igualmente bombardeada com aquilo que deveria ou não fazer. Não só pode sentir que tem de justificar a sua escolha aparentemente desajustada, ou até mentir para que se adeqúe mais à aprovação dos outros, como ainda fica com o estigma de que não está a ser suficientemente boa, sem o espírito de sacrifico ou o altruísmo que deveria caracterizar qualquer mãe. Há sempre a polémica de se questionar se o bem-estar da mãe se pode ou não sobrepor aos benefícios que um bebé retiraria de ser alimentado com o seu leite. Contudo, parece claro que se nos focarmos no real em vez do ideal, concluímos que uma mãe que está em sofrimento (e este não é necessariamente fruto de má informação) ou que tão somente se sinta desconfortável, em nada está a promover o bem-estar do bebé. Todos sabemos que o leite materno traz vários benefícios em relação ao leite em pó, mas esse argumento a preto e branco não é justo para uma mãe que associa a amamentação a algo negativo ou até penoso. Também era mais benéfico que não utilizássemos carro e não poluíssemos o ambiente em que os nossos filhos vão respirar e, no entanto, isso não coloca em causa qualidades maternais. Amamentar é muito mais que o leite. Dar biberão também.

Se nos descentrarmos das nossas experiências pessoais, facilmente verificamos que todas estamos do mesmo lado da barricada, ou seja, é sempre fácil questionarem ou criticarem as nossas escolhas da mesma forma que todas somos responsáveis pelas energias positivas ou negativas que depositamos nas mães que nos rodeiam.

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